Acontece

Ensinar e Aprender

 
 
Eu gosto da minha professora porque ela me mostra as coisas que estão na minha frente mas eu nem via. Às vezes ela me faz escutar uns barulhos que eu nem prestava atenção, às vezes ela canta umas musiquinhas muito lindas e engraçadas, me faz provar umas frutas doidas e umas comidas que eu nunquinha que ia provar. Mas ela fala com um jeitinho e vai pondo na minha frente, me fazendo ficar curiosa...e ela me abraça e me faz cafuné, às vezes até massagem no pé ela faz e o dia que ela me fez cheirar uma flor e depois uma fruta e depois uma cebola....esta professora é muito maluquinha e ela gosta de se esconder debaixo das mesas e nos lugares mais escondidos e depois a gente tem de procurar e a gente sai se escondendo pra ela ir procurar...adoro isto! Daí ela pega as coisas que eu já sei e vai me fazendo ver como é que estas coisas funcionam, pra que que servem, com que são parecidas, eu sempre descubro mais do que eu sabia, é muito bom! Ela me escuta, isto é ótimo porque a maioria das pessoas grandes não escuta o que a gente quer falar. Ela pergunta coisas pra mim! Ela quer saber o que eu acho, eu me sinto importante! É que eu sei umas coisas e a minha professora sabe que eu sei...ela também sabe um monte e me mostra o que ela sabe mas é como se o que eu soubesse grudasse com o que ela sabe e a gente fica mais inteligente, nós duas.
Outra coisa que eu gosto na minha professora é que ela me explica direitinho o que ela quer, não fica achando que eu já devia saber as coisas, que nem quando por exemplo ela quer que eu limpe meu prato, limpe meu lugar na mesa. Ela não faz cara feia como eu já vi outra professora fazer. A minha, não, ela me fala o que é pra eu fazer, me ensina direitinho, repete quando eu esqueço. Às vezes eu esqueço, ué... E quando ela vê que a coisa é complicada ela divide em partes, fala “vamos por partes” e dá um pouquinho de idéia de cada vez, foi assim que eu entendi como é que fazia pra ajeitar as coisas na mochila.
E aí quando eu descubro as coisas, eu vou contar pra ela e ela adora, faz a maior festa. E sabe, quando ela faz alguma coisa errada, ela pede desculpa, se explica. Ela sempre diz que todo mundo pode errar, não tem problema. Se não acertou desta vez, da outra acerta. Ufa, dá um alívio...porque às vezes, eu demoro pra aprender...
 
A tarefa do professor de crianças é traduzir-lhes o mundo por meio de todas as linguagens e de todos os sentidos. Ajudá-las a ver como as questões de seu pequeno universo, de seu dia-a-dia, suas preocupações atuais se inserem no campo mais amplo da cultura universal.
Um bom professor acolhe o que o aluno lhe mostra e o como ele mostra o que sabe ou o que aprendeu. Faz valer o que vem do aluno e procura, com sensibilidade, mostrar como expandir este conhecimento.
O bom professor é aquele que se dá conta de que quase tudo pode ser e mesmo precisa ser ensinado. Não fica esperando que o aluno saiba de antemão o que ele, professor, tem na cabeça: esclarece o que deseja, o que espera do aluno, torna pública sua demanda, mostra sua pertinência, ouve e incentiva as argumentações do aluno e as considera.
Pois a aluno precisa como que inventar aquele conhecimento de novo: só então torna-se autor, responsável por seu aprender.
Este é o objetivo final de quem ensina, a tal da autonomia.
O bom professor sabe disto e abre espaço de autoria para o aluno.
O bom professor inclui e se inclui. Ao ensinar, aprende sobre si mesmo, sobre o que ensina e sobre o próprio aluno. Naturalmente, o que deriva disto é a reflexão e a avaliação da prática.
Que possamos nós também ocupar o lugar de alunos, podermos sempre interrogar, perguntar junto. Redescobrir. Quanto mais entusiasmo tivermos, mais chance teremos de “contagiar” a criança com o que há para aprender.
E se temperarmos tudo isto com boas doses de incentivo, de afeto e camaradagem, fica mais fácil e mais emocionante ensinar e aprender.
A criança vai aprender, no seu tempo, o tanto que puder.

 

Ana Lucia S C Pierri, Educadora e Vice-presidente
 
 

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